UPB articula pacto para fortalecer o forró e garantir mais espaço a artistas baianos no São João

Encontro com representantes do movimento forrozeiro debate desburocratização de contratos, equilíbrio fiscal e proposta de reservar ao menos 50% da programação junina para atrações locais

A defesa da cultura nordestina e o fortalecimento do forró como símbolo maior dos festejos juninos ganharam destaque em um encontro promovido pela União dos Municípios da Bahia (UPB), realizado na manhã desta quinta-feira (5). A reunião reuniu gestores públicos, parlamentares e representantes de coletivos do forró da Bahia para discutir caminhos que garantam mais espaço aos artistas locais e assegurem a sustentabilidade das festas de São João nos municípios.

Durante o diálogo institucional, os forrozeiros apresentaram oficialmente uma pauta com dois eixos considerados prioritários: a simplificação dos processos de contratação, sobretudo para artistas de pequeno e médio porte, e a criação de critérios que garantam uma presença mínima de atrações locais nas programações juninas. A proposta surge em meio ao debate sobre a necessidade de equilibrar a valorização cultural com a responsabilidade na gestão dos recursos públicos.

O presidente da UPB, Wilson Cardoso, ressaltou que a iniciativa busca justamente esse ponto de equilíbrio. Para ele, fortalecer o São João passa tanto pela preservação da tradição quanto pelo respeito aos limites financeiros dos municípios. “Quem ganha é o São João de qualidade e quem ganha é a população, que vai poder celebrar, dançar forró e viver a festa dentro da realidade de cada cidade. O importante é fazer um São João bonito, organizado e responsável”, afirmou.

Wilson também destacou a preocupação com o impacto das grandes despesas nos cofres públicos. Segundo ele, eventos realizados acima da capacidade orçamentária acabam comprometendo áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura. “O que nos anima é saber que o nosso São João é raiz, é identidade, e que a cultura local tende a ser cada vez mais valorizada. Isso é bom para a população e para as gestões municipais”, completou.

Presente ao encontro, o deputado estadual Zé Neto defendeu a necessidade de revisar a legislação que rege as contratações artísticas e sugeriu a abertura de diálogo com a Secretaria de Cultura do Estado. “Precisamos sentar com o secretário Bruno Monteiro e revisitar a chamada Lei da Zabumba, além de pensar em uma proposta mais ampla, até mesmo em nível nacional. Temos uma grande oportunidade de fortalecer a cultura e a nossa identidade, além de impulsionar a economia do interior”, pontuou o parlamentar.

Um dos pontos mais sensíveis do debate foi a dificuldade enfrentada por artistas locais para atender às exigências burocráticas atuais. O compositor e embaixador do forró e da cultura nordestina, Del Feliz, chamou atenção para a desigualdade no acesso às contratações públicas. “A lei acaba facilitando para quem já está nos grandes escritórios. Mas como fica o artista que está começando? Muitas vezes ele não consegue atender às exigências de documentação, como as três notas fiscais pedidas, e fica de fora da programação”, criticou.

Como encaminhamento prático, foi apresentada uma Proposta de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que prevê o compromisso de os municípios baianos destinarem, no mínimo, 50% da programação junina a artistas do próprio estado. A ideia é que esse percentual seja considerado tanto no número de atrações quanto, sempre que possível, no volume de recursos investidos nas contratações.

Para Gabriel Carvalho, representante dos forrozeiros, o São João vai muito além de uma festa popular: trata-se de uma das maiores expressões culturais da Bahia e de um importante motor de geração de emprego e renda. “Quando se utiliza dinheiro público, é justo que se priorize quem produz cultura aqui, fortalece a identidade do povo e movimenta a economia criativa local”, afirmou.

A proposta do TAC também prevê que a UPB atue como articuladora junto aos municípios, oferecendo orientação técnica para a implementação das medidas, além de contar com o apoio institucional do Governo do Estado. O objetivo é reduzir conflitos jurídicos, dar mais segurança às gestões municipais e, ao mesmo tempo, criar um ambiente mais favorável para a participação dos artistas baianos nos festejos.

Ao final do encontro, ficou definido que o tema seguirá em debate com o Ministério Público e outros órgãos de controle, na busca por soluções legais que simplifiquem procedimentos e fortaleçam o São João como uma festa cada vez mais inclusiva, sustentável e profundamente enraizada na cultura da Bahia.