No Rio Vermelho, milhares celebram a Rainha das Águas num encontro de ancestralidade, tradição afro-brasileira, arte e sociedade
Nesta segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, a capital baiana viveu mais uma edição da Festa de Iemanjá, uma das celebrações religiosas e culturais mais emblemáticas do Brasil, que transformou o bairro do Rio Vermelho, em Salvador (BA), em um grande ponto de devoção, cultura popular e expressão de identidade.
Desde as primeiras horas da manhã, a Praia da Paciência e suas imediações foram tomando forma de um vasto cenário de fé: milhares de pessoas — entre praticantes de religiões de matriz africana, pescadores, moradores, turistas e admiradores — chegaram cedo, compondo um mar de flores brancas, cantos, oferendas e emoção.

O Ritual da Entrega e a Conexão com o Sagrado
O ponto central da celebração foi a tradicional entrega do presente a Iemanjá — a Rainha do Mar e orixá das águas salgadas, símbolo de proteção, maternidade, equilíbrio e ancestralidade.
Devotos depositaram suas oferendas — compostas principalmente por flores, perfumes e objetos confeccionados com materiais ecológicos — como forma de agradecimento, pedidos de proteção e renovação espiritual. A iniciativa de oferecer presentes ecologicamente sustentáveis reforça o respeito ao mar, considerado a casa da orixá, e o compromisso com a preservação ambiental entre os participantes.
“Iemanjá é mãe, é cuidado e acolhimento”, afirmou uma ialorixá presente na cerimônia, destacando a força espiritual transmitida de geração a geração.

Séculos de História e Identidade Cultural
Celebrada anualmente no dia 2 de fevereiro desde 1924, a Festa de Iemanjá completou 104 anos em 2026, consolidando-se como um dos eventos religiosos mais intensos do calendário cultural da Bahia e do Brasil.
Em 2020, a festa foi oficialmente tombada como patrimônio cultural imaterial de Salvador, reconhecimento que reflete sua importância histórica, sociocultural e religiosa.

Cultura, Turismo e Sustentabilidade
Junto às homenagens religiosas, a programação cultural incluiu apresentações artísticas, shows e iniciativas voltadas para valorização da cultura afro-brasileira e o fortalecimento do turismo responsável no bairro do Rio Vermelho.
A Secretaria do Meio Ambiente coordenou um mutirão de limpeza na orla antes da festa, recolhendo resíduos e orientando os devotos sobre práticas sustentáveis — um gesto que reforça o respeito ao mar e à casa de Iemanjá, um dos pilares da celebração moderna.
Outras Faces da Devoção em Salvador
Além do grande evento no Rio Vermelho, outras comunidades da capital também mantêm tradições próprias em homenagem à orixá. Na Gamboa de Baixo, por exemplo, moradores e pescadores celebram há mais de quatro décadas a entrega de oferendas, reforçando o elo entre pesca, ancestralidade e fé popular — e lembrando que essas festas também são expressão de memória e luta por território e identidade.





