Mercado de cacau ensaia recuperação técnica após forte liquidação, mas fundamentos ainda limitam altas

Redução da pressão vendedora impulsiona contratos, enquanto avanço dos estoques certificados e cautela com oferta global mantêm investidores atentos

Após dias de intensa pressão nos preços, o mercado internacional de cacau iniciou a semana em ritmo de recuperação. O movimento, no entanto, tem caráter predominantemente técnico e ocorre após uma sequência de liquidações de contratos típicas do período que antecede as entregas físicas da commodity.

Nas sessões anteriores, operadores que não pretendiam assumir a entrega do produto ampliaram a saída de posições nos contratos futuros, gerando um fluxo vendedor expressivo e pressionando as cotações. Com o encerramento desse ciclo e a retirada desses participantes do mercado, o volume de vendas perdeu força, permitindo uma recomposição dos preços.

Apesar do alívio, analistas avaliam que não houve, até o momento, alteração significativa nos fundamentos de oferta e demanda no curto prazo. Assim, o cenário permanece sensível a novos dados sobre produção, estoques e ritmo de moagem nos principais polos consumidores.

Alta no contrato de maio e recomposição de posições

O contrato com vencimento em maio fechou a sexta-feira cotado a US$ 3.178 por tonelada, avanço diário de US$ 120. Ao longo do pregão, os preços oscilaram entre US$ 3.031 e US$ 3.226, refletindo a volatilidade que tem marcado o mercado nas últimas semanas.

O volume negociado foi expressivo, com 24.300 negócios e 60.112 contratos movimentados. O interesse em aberto avançou para 165.391 contratos, sinalizando retorno gradual de participantes e possível recomposição de posições após o período de liquidação.

No primeiro dia de entrega física, foram registrados 234 contratos. A maior parte foi entregue pela ADM Investor Services, com 204 contratos, enquanto a StoneX respondeu por 30.

Do lado dos recebedores, destacaram-se o ABN Amro (70 contratos), a Citigroup (97), o Societe Generale (60) e a própria StoneX (7), evidenciando a atuação relevante de instituições financeiras no processo.

Estoques certificados avançam nos EUA

Outro fator acompanhado de perto pelo mercado foi o crescimento dos estoques certificados nos portos norte-americanos monitorados pela Intercontinental Exchange (ICE). Houve acréscimo de 23.799 sacas, elevando o total para 2.111.554 sacas.

O aumento reforça a percepção de disponibilidade imediata do produto, o que pode atuar como limitador para movimentos de alta mais consistentes no curto prazo. Em mercados de commodities, níveis elevados de estoques tendem a reduzir a pressão compradora, especialmente quando não há sinais claros de aperto na oferta global.

Indicadores técnicos apontam sobrevenda

Sob a ótica da análise técnica, o mercado apresenta sinais de possível correção. O Índice de Força Relativa (RSI) está em 19%, nível considerado de sobrevenda. Em termos práticos, isso indica que o ativo pode ter sido excessivamente penalizado nas últimas sessões, abrindo espaço para recuperação técnica.

Os próximos pregões devem testar faixas relevantes no gráfico. As resistências mais próximas estão situadas entre US$ 3.500 e US$ 3.650 por tonelada. Caso o movimento de alta não se sustente, os suportes estão posicionados em US$ 3.000 e, em um cenário de maior pressão, em US$ 2.750.

Impacto do câmbio no mercado brasileiro

Para o mercado doméstico, o comportamento do dólar segue sendo variável determinante na formação dos preços. O contrato futuro da moeda norte-americana para 27 de fevereiro de 2026 está cotado a R$ 5,18.

A valorização ou desvalorização cambial influencia diretamente a rentabilidade das exportações e o preço pago ao produtor brasileiro, especialmente em um contexto de ajustes técnicos no mercado internacional.

Embora a recuperação recente traga certo alívio, o mercado de cacau ainda opera sob um ambiente de incerteza. A consolidação de uma tendência mais definida dependerá da evolução dos estoques globais, das condições climáticas nas principais regiões produtoras e do comportamento da demanda nos próximos meses.