Prefeitos criticam valores cobrados por bandas, apontam distorções no mercado artístico e defendem limites para garantir a sobrevivência das festas juninas
O São João, símbolo máximo da identidade cultural do Nordeste e motor econômico de dezenas de municípios baianos, entrou na mira de uma preocupação crescente entre gestores públicos: a escalada vertiginosa dos cachês cobrados por bandas e artistas. O que antes era um esforço de planejamento cultural hoje se aproxima de uma equação quase impossível de fechar, especialmente para cidades pequenas, com orçamentos enxutos e inúmeras demandas sociais.
Prefeitos de diferentes regiões da Bahia denunciam que os valores exigidos por algumas atrações atingiram patamares considerados irreais e desconectados da capacidade financeira dos municípios. Em muitos casos, o custo de uma única apresentação supera investimentos anuais em áreas essenciais, como saúde básica, manutenção de escolas ou infraestrutura urbana. O resultado é um dilema incômodo: manter viva a tradição junina ou preservar o equilíbrio das contas públicas.
O debate ganhou força em encontros realizados na União dos Municípios da Bahia (UPB), onde gestores relataram situações em que o orçamento inteiro do São João quase foi consumido por dois ou três nomes de peso do cenário musical. Para eles, a ausência de critérios claros e referências de preço abriu espaço para uma espécie de “mercado inflacionado”, no qual a lógica cultural cede lugar à especulação e ao efeito manada entre produtores e artistas.
Embora reconheçam a importância econômica e simbólica das festas juninas — que aquecem o comércio, impulsionam o turismo e fortalecem a cultura popular —, os prefeitos afirmam que o atual modelo de contratações é insustentável. Em municípios menores, a consequência já começa a aparecer: festas encurtadas, programações mais modestas ou, em casos extremos, o cancelamento total dos eventos.
Diante do cenário, os gestores defendem a construção de um diálogo institucional com o Ministério Público, Tribunais de Contas e entidades municipalistas para discutir parâmetros, orientações técnicas e até limites referenciais para os cachês. A proposta não é atacar artistas ou desvalorizar a música, mas estabelecer regras que impeçam abusos e garantam mais transparência e responsabilidade no uso do dinheiro público.
Enquanto cidades maiores anunciam com antecedência suas atrações para o São João de 2026, a inquietação cresce no interior: até que ponto será possível competir com cifras cada vez mais altas sem comprometer serviços básicos à população? Para os prefeitos, preservar o São João passa, necessariamente, por frear excessos e recolocar a festa no seu lugar de origem — como celebração popular, acessível e sustentável, e não como um peso insuportável para os cofres municipais.





