Zezé Di Camargo ataca a política, mas vive dela: cantor fatura quase R$ 20 milhões em shows pagos com dinheiro público

Enquanto critica Lula, o STF e até o SBT, artista acumula contratos milionários com prefeituras em 2025 e vira símbolo da contradição entre discurso moral e cachê bancado pelo contribuinte

O cantor Zezé Di Camargo, conhecido por décadas de sucesso na música sertaneja, passou a ocupar o noticiário recente não apenas por suas canções, mas pelo discurso político agressivo que adotou e, sobretudo, pela contradição explícita entre fala e prática. O artista, que acusou a família Abravanel de “prostituir” o SBT por receber o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, é o mesmo que, longe dos palcos ideológicos, engordou a conta bancária com quase R$ 20 milhões em recursos públicos apenas em 2025.

Levantamento com base em contratos oficiais mostra que Zezé Di Camargo foi contratado por ao menos 40 prefeituras espalhadas pelo país, todas utilizando dinheiro do contribuinte para garantir sua presença em festas municipais, aniversários de cidades, rodeios e feiras agropecuárias. Os contratos são legais e públicos, mas o que chama atenção não é a legalidade — e sim o volume dos valores envolvidos e o silêncio conveniente do artista quando o dinheiro vem do Estado.

Segundo dados divulgados pelo portal Splash, o total recebido pelo cantor chega a R$ 19.245.000,00, com cachês individuais variando entre R$ 400 mil e R$ 600 mil por apresentação. Na prática, bastam pouco mais de uma hora de show para garantir valores que muitos municípios levam meses — ou anos — para investir em áreas essenciais como saúde básica, educação ou infraestrutura urbana.

O show mais caro aconteceu em Fazenda Rio Grande, no Paraná, seguido por apresentações em Loanda (PR) e Ilha Solteira (SP). O detalhe que escancara o debate é o porte dessas cidades: municípios com apenas 20 a 25 mil habitantes, que desembolsaram R$ 580 mil para ouvir o artista cantar seus maiores sucessos. Em locais onde faltam médicos, medicamentos e investimentos em escolas, a prioridade foi o palco, o camarim e o cachê milionário.

O episódio expõe uma ironia difícil de ignorar. Zezé Di Camargo se coloca como crítico ferrenho de figuras públicas e instituições, mas não demonstra o mesmo incômodo ao receber milhões do poder público. Quando o Estado aparece como tema de discurso, é alvo de ataque; quando surge como contratante, vira parceiro silencioso e eficiente.

Especialistas em gestão pública lembram que a contratação de artistas para eventos é permitida por lei, mas alertam que legalidade não significa legitimidade social. O uso de cifras tão elevadas para entretenimento, especialmente em municípios pequenos, reforça a percepção de um modelo distorcido de prioridades, no qual o espetáculo muitas vezes fala mais alto do que as necessidades básicas da população.

Nas redes sociais, a reação tem sido dura. Internautas apontam o que chamam de hipocrisia seletiva: “Critica político, STF e emissora, mas não recusa um centavo quando o dinheiro sai do cofre público”, comentou um usuário. Outros questionam se o cantor manteria o mesmo discurso caso seus contratos dependessem exclusivamente da iniciativa privada.

Até o momento, Zezé Di Camargo não se manifestou sobre o volume de recursos recebidos nem sobre a incoerência apontada por críticos. Enquanto isso, o caso segue como um retrato incômodo de uma velha prática brasileira: condenar o Estado no discurso, mas celebrá-lo no cachê.