Luto na MPB: Morre a icônica cantora Nana Caymmi aos 84 anos no Rio

O cenário da Música Popular Brasileira (MPB) se despede de uma de suas vozes mais marcantes e sofisticadas: Nana Caymmi faleceu nesta quinta-feira (1º de maio de 2025), aos 84 anos, no Rio de Janeiro. A artista estava internada desde julho do ano passado na Casa de Saúde São José, localizada no Humaitá, Zona Sul da cidade, para tratar uma arritmia cardíaca. A causa da morte, segundo informações do hospital, foi disfunção de múltiplos órgãos.


Nascida Dinahir Tostes Caymmi em 29 de abril de 1941, a cantora completou 84 anos apenas dois dias antes de sua partida. Carioca de nascimento, Nana cresceu imersa em um universo musical, sendo filha do lendário Dorival Caymmi e de Stella Maris, e irmã dos talentosos Danilo Caymmi e Dori Caymmi.


Com uma discografia primorosa, marcada pela coerência na escolha de repertório, arranjadores e produtores, como bem definiu o colunista Mauro Ferreira, Nana Caymmi construiu uma trajetória única na música brasileira. Sua estreia musical ainda na adolescência, ao lado do pai, prenunciava o talento que viria a encantar gerações.

Em 1960, gravou um dueto emocionante na canção “Acalanto”, composta por Dorival quando ela ainda era bebê, cujos versos se tornaram uma canção de ninar clássica em todo o país: “Boi, boi, boi / Boi da cara preta / Pega essa menina que tem medo de careta”.
No ano seguinte, após lançar seu primeiro compacto solo, Nana surpreendeu ao mudar-se para a Venezuela após seu casamento com um médico venezuelano, aos 18 anos. A experiência, contudo, não se mostrou fácil, e ela retornou ao Brasil com suas filhas Estela e Denise, e grávida de seu terceiro filho, João Gilberto.


Dona de uma voz inconfundível e интерпретаção singular, Nana Caymmi eternizou clássicos de grandes nomes da música brasileira, como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Milton Nascimento e Roberto Carlos, sempre imprimindo sua marca pessoal. Em 1964, participou da gravação do histórico disco “Caymmi visita Tom e leva seus filhos Nana, Dori e Danilo”, que alcançou sucesso tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.


Um dos momentos mais desafiadores e marcantes de sua carreira ocorreu em 1966, no Festival Internacional da Canção. Ao interpretar “Saveiros”, de seu irmão Dori Caymmi, foi vaiada pelo público, mas, paradoxalmente, consagrou-se vencedora da competição.


Nana Caymmi — Foto: Lívio Campos / Divulgação


Apesar de nunca ter alcançado a popularidade massiva de outras grandes cantoras da MPB, como Maria Bethânia, Elis Regina e Gal Costa, Nana Caymmi consolidou-se, desde o início de sua trajetória, como uma das artistas mais relevantes e respeitadas do país.


“Embora nunca tenha sido cantora de arroubos teatrais, Nana encara o peso e a dramaticidade das músicas em que põe a voz lapidada com o tempo que fez emergir, a partir dos anos 1970, o brilho do verdadeiro diamante embutido nas cordas vocais da intérprete”, escreveu o crítico musical Mauro Ferreira em 2021, evidenciando a profundidade e a sofisticação de sua arte.


Seus últimos trabalhos lançados foram os álbuns “Nana, Tom, Vinicius” (2020) e “Nana Caymmi Canta Tito Madi” (2019), que reafirmam sua paixão pela excelência musical e pela riqueza da canção brasileira.
Além de sua marcante carreira musical, Nana Caymmi também teve relacionamentos notórios, como o casamento com Gilberto Gil, entre 1967 e 1969, e os namoros com os cantores João Donato e Cláudio Nucci.


A partida de Nana Caymmi deixa um legado imensurável para a música brasileira e saudades em seus três filhos e duas netas. Sua voz única e sua interpretação apaixonada ecoarão para sempre na história da MPB.